“Quando Pero Vaz Caminha
descobriu que as terras brasileiras eram férteis e verdejantes,
escreveu uma carta ao rei:
Tudo que nela se planta, tudo cresce e floresce.
E o Gaus da época gravou...”
Sobre a cabeça os aviões, sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões meu nariz
Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no Planalto Central do país
Viva a bossa-sa-sa, viva a palhoça-ça-ça-ça-ça
O monumento é de papel crepom e prata, os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás de verde mata o luar do sertão
O monumento não tem porta, a entrada de uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, feia e morta estende a mão
Viva a mata-ta-ta, viva a mulata-ta-ta-ta-ta
No pátio interno há uma piscina com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina e faróis
Na mão direita tem uma roseira autenticando eterna primavera
E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis
Viva Maria-ia-ia, viva a Bahia-ia-ia-ia-ia
No pulso esquerdo bang-bang, em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes pelos cinco mil alto-falantes
Senhora e senhores ele põe os olhos grandes sobre mim
Viva Iracema-ma-ma, viva Ipanema-ma-ma-ma-ma
Domingo é o fino da bossa, segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça porém
O monumento é bem moderno, não disse nada do modelo do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno meu bem
Viva a banda-da-da, Carmem Miranda-da-da-da-da
Me and you and you and me
No matter how they toss the dice, it has to be
The only one for me is you, and you for me
So happy together
So happy together
How is the weather
So happy together
We're happy together
So happy together
Happy together
So happy together
So happy together (ba-ba-ba-ba ba-ba-ba-ba)
Enquanto isso no ônibus, duas amigas:
"- Então, eu to com um poblema."
"- Não! Sua besta! Você tá usando errado?"
"- ..."
"- Poblema é quando é dos outros. Pobrema é quando é nosso."
Então. Eu tava lá.
Eu, playboy criado a leite de pêra e ovomaltino, - tudo intriga da oposição - fui lá ver o show dos Racionais MC's, no meio da madrugada paulista, em plena Praça da Sé.
Primeiro, não acreditaram que eu ia. Pô. Que coisa. Eu realmente gosto do som deles.
Depois me falaram: "cê tá doido, vai dar merda."
Qual é o problema, mano? Não sabe brincar, não sai de casa. =^D
Chego lá, e tirando um consumo de drogas e álcool de algumas pessoas nas ruas - nada que já não tenha visto em outros shows - as coisas pareciam bem calmas. Tinha criança, tinha até gente com bebês!
Tudo na santa paz.
O show demora pra começar. Durante as primeiras apresentações do Dj gringo, Premier e de um outro grupo que eu não tenho a mínima idéia do nome, a gente vê alguns caras se amontoando nos prédios em volta, subindo em bancas de jornais e etc. Claro que tavam detonando as coisas. Invadem os escritórios pelas janelas - não quero nem imaginar a zorra que devem ter feito. Pixam paredes. E eu pensava: será que a polícia tá vendo isso?
Começa o show dos Racionais. Sonzeira. Todo mundo cantando as letras, uma sensação bacana de festa popular.
De repente, olho pro lado e começo a ver muita coisa voando. Garrafas plásticas, copinhos e depois a coisa parece ficar um pouco mais feia, com pedaços de pau cruzando sempre pro mesmo lado.
Eu pensei: "acho que vai dar merda". Mas de onde a gente tava, não tinha como saber EXATAMENTE o que estava acontecendo.
Já tinham tocado umas 3 ou 4 músicas, quando a coisa começa a ficar bem feia... Empurra-empurra na platéia... Aquela onda de gente vindo pra cima, gente caindo no chão e começam os primeiros tiros e bombas.
Uma menina tem um ataque de asma na nossa frente. Enquanto isso, no palco, os Racionais pedem pro público se acalmar, para curtirem a festa, uma festa do povo. Nada de provocação com a polícia da forma como foi alardeado por aí. Eu não vi isso.
Aí a coisa fica feia mesmo, gente correndo pra caramba, bombas e mais bombas, tiros e mais tiros... A gente vai seguindo pro fundo do público, tentando fugir principalmente da correria desesperada das pessoas. No meio do caminho, cruzo com um cara de cadeira-de-rodas. Fico imaginando com ele faria pra sair dali se a coisa ficasse mais preta. E ficou.
Quando a gente viu, a tropa de choque da PM tava empurrando todo mundo pra fora da Praça. Pessoas corriam e gritavam por todos os lados. Não tinha outra coisa a fazer, se não correr também.
Até conseguir chegar no carro com um mínimo de segurança e, rapidamente, fugir do centro da cidade, vimos de tudo: gente invadindo loja e saqueando, gente chutando carros - da polícia e de gente comum! o meu tava na fila para ser detonado.
É claro que tem baderneiro. Como tem em jogo de futebol e outros eventos. Tem cara que quer estragar a festa, que quer provocar. Sempre tem.
Mas não precisava daquilo tudo. Realmente não me pareceu que precisava daquilo tudo. Outras pessoas falaram isso. O senador Suplicy disse que a reação da polícia foi exagerada. Xico Sá deu seu depoimento corajoso aqui, contando o que ele viu. Uma amiga - Joana Beneton - disse que foi salva pelos amigos que fez lá, com um cordão de isolamento bacanudo que ajudou muita gente. Mas não era necessário. Não daquele jeito.
Não era necessário um amigo de uma amiga minha ficar todo arrebentado por causa de uma "bomba de efeito moral". =^(
Triste isso porque depois vem toda a carga de preconceito em cima dos Racionais, em cima das pessoas que foram lá curtir o evento. É fácil bater, é fácil julgar né? - com todos os sentidos que isso possa ter, para todos os lados envolvidos na questão provocadores daqui e dali.
É uma pena. Eu, com muitos outros ali, só queríamos curtir a festa, o show, a música. Uma madrugada gostosa, som rolando por vários cantos do centro, gente feliz, numa boa.
Muitos terminaram ali a sua virada cultural, broxados para ver outras coisas bem legais que tinha para ver no decorrer da madrugada e do dia seguinte.
E hoje, a gente vê, depois da cobertura preconceituosa da mídia tradicional, a cobertura de gente que estava lá, que viveu e que pode contar de forma melhor e verdadeira o que se passou. Cada um com seu ponto-de-vista.
Para terminar, segue o senador Suplicy cantando Racionais, em plena sessão para discussão da mudança da lei de maioridade penal. Com aqueles senhores senadores da República, felizes e contentes, bonachões, - Ah! ACM! - dando risada do nobre colega. Enquanto isso, um monte de gente se fode solenemente nesse país. Vida Lôka!
Tantos mistérios pra desvendar
Nas manhãs que abrem teu coração
Nesse teu corpo de mel e luar
Cada dia semear a mais linda canção
Pra colher as estrelas do céu
Nesses teus olhos de mar e luar
Teu amor é cachoeira
Que levou meu coração
Nas águas de um rio de sonhos
Que desperta em tuas mãos
Cada dia semear a mais linda canção
Pra colher as estrelas do céu
Nesses teus olhos de mar e luar
Teu amor é cachoeira
Que levou meu coração
Nas águas de um rio de sonhos
Que desperta em tuas mãos
*É tudo água! =^D
**Fefe, cadê meu autógrafo do Príncipe Ronnie Von??? Escaneia! Fotografa!
Ouve a declaração, oh bela
De um sonhador titã
Um que dá nó em paralela
E almoça rolimã
O homem mais forte do planeta
Tórax de Superman
Tórax de Superman
E coração de poeta
Não brilharia a estrela, oh bela
Sem noite por detrás
Tua beleza de gazela
Sob o meu corpo é mais
Uma centelha num graveto
Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto
Mais que na lua ou no cometa
Ou na constelação
O sangue impresso na gazeta
Tem mais inspiração
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto
Oh bela, gera a primavera
Aciona o teu condão
Oh bela, faz da besta fera
Um príncipe cristão
Recebe o teu poeta, oh bela
Abre teu coração
Abre teu coração
Ou eu arrombo a janela